Pelo menos por enquanto, o avanço do novo coronavírus e as medidas de contenção da pandemia não afetam a concessão de crédito imobiliário no Brasil. Os cinco principais bancos – Caixa, Itaú, Santander, Bradesco e Banco do Brasil – continuam operando a modalidade, mesmo que remotamente.

“Nenhum dos bancos fala em parar o crédito imobiliário”, afirma Eduardo Muszkat, especialista em finanças, co-fundador e CFO da startup Kzas. “O que pode ocorrer é o processo ficar mais lento, pois as BPOs (responsáveis por reunir, organizar e verificar os documentos dos tomadores de crédito) e os próprios bancos estão funcionando em regime parcial, em turnos, portanto a capacidade de processamento diminuiu”.

A presidente da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), Cristiane Portella, confirmou via e-mail para a Smartus que os financiamentos de imóveis continuam sendo ofertados. “O envio da documentação e a aprovação do crédito podem ser feitas de forma online”, destaca.

Na opinião de ambos, deve ocorrer atrasos na tramitação em decorrência dos horários e condições especiais de funcionamento dos cartórios registradores de imóveis. “São Paulo está mais preparada porque os cartórios paulistas são mais digitalizados, a maior parte emite certidões online. Nos cartórios de outras cidades, a maior parte demanda presença física para as certidões necessárias no processo de repasse. Nestes casos, vai ser mais complicado”, avalia Muszkat.

Segundo o especialista, a soma dos fatores elencados deve aumentar os prazos de 60 a 120 dias para 90 a 180 dias, respectivamente, com maior impacto nos próximos dois meses, período após o qual deve se restabelecer a normalidade das tramitações. “Os bancos estão digitalizados e os clientes podem transmitir os documentos pelo celular, mas nos cartórios antevejo problemas”.

Serviço essencial

No domingo (22), a Caixa comunicou que 70% dos funcionários das agências foram orientados a realizar home office a partir de segunda-feira (23). De acordo com o vice-presidente da Rede de Varejo do banco, Paulo Henrique Angelo, o atendimento no interior das agências está restrito aos serviços essenciais, como operações sem cartão de saques do INSS, seguro-desemprego, Bolsa Família e outros benefícios socioassistenciais. Medida semelhante tem sido adotada pelos demais bancos, pressionados pelos sindicatos dos bancários.

O Sindicato dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) se reuniram ontem (23) por videoconferência para tratar sobre as atividades da categoria. Em nota publicada no site, a unidade sindical de São Paulo, Osasco e Região informa que aguarda resposta da Fenaban às solicitações.

Muszkat sustenta que do ponto de vista da cadeia produtiva do mercado imobiliário, as operações de crédito são absolutamente essenciais. “Entre 60% a 70% do que é pago pelo imóvel é financiado após o Habite-se. Se houver paralisação [do crédito imobiliário], o repasse da dívida para os bancos será postergado, e é justamente no repasse que a incorporadora recebe o lucro; se isso ocorrer, a incorporadora que não tem recurso em caixa pode se apertar”, explica o especialista.

Ele também ressalta que os lançamentos não são prejudicados por eventual atraso ou paralisação nas operações de crédito imobiliário, uma vez que o repasse somente ocorre ao término da obra. “A situação não tem a ver com a disponibilidade de crédito, até porque são recursos carimbados da poupança e atualmente há bastante crédito disponível. Não vejo efeito na comercialização”, afirma.

Mesmo assim, dada a incerteza do momento, muitas incorporadoras estão adiando seus lançamentos. Nas obras já iniciadas, não houve – até este instante – ordem de paralisação dos canteiros. Tal medida pode forçar as construtoras a demitir em massa, conforme explicado no mais recente Resumo da Semana (veja aqui).

Outro sinal de retração do mercado são as mais de 100 mil solicitações recebidas pela Caixa para adiar a cobrança de parcelas do crédito imobiliário. A possibilidade foi anunciada pelo banco na quinta-feira (19) e prevê pausa dos pagamentos durante dois meses. 

Aprovação de projetos

As incorporadoras devem ter dificuldade na aprovação de projetos, uma vez que os atendimentos nas prefeituras também foi modificado. Em Campinas, segundo a assessoria de comunicação da prefeitura, o atendimento tem sido realizado em horário reduzido e apenas mediante agendamento prévio desde sexta-feira (20).

No departamento de Urbanismo, são permitidas quatro pessoas por vez por ambiente (incluindo os funcionários), “quando estritamente necessário e mediante agendamento prévio no Portal do Cidadão”. 

Em Goiânia, segundo o secretário de Planejamento Urbano e Habitação, Henrique Alves, boa parte dos servidores está em home office, mas a análise e a emissão dos alvarás de construção e reforma não foram prejudicadas, pois o serviço é digital. “Restringimos o atendimento pessoal, mas o serviço está ocorrendo normalmente em razão da digitalização dos processos. Não houve qualquer atraso”.

Por Henrique Cisman. Publicado originalmente na Smartus, em 25/3/20.

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